EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU NO TÚMULO 1001 EM 1982 | História de Terror Real
EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU NO TÚMULO 1001 EM 1982 | História de Terror Real
Depois de mais de 40 anos como coveiro, posso dizer que enterrei muita gente, mas nunca saí de um funeral da forma que saí daquele. Era um homem sem nome, sem família e sem ninguém para chorar por ele. Antes mesmo da terra cobrir aquele caixão, senti um incómodo que não conseguia explicar.
Na altura achei que fosse apenas impressão, mas a semana que veio, depois daquele enterro, mudou a forma como passei a ver o meu trabalho. E tudo ficou ainda mais estranho no dia em que uma desconhecida parou diante daquele túmulo e disse uma única frase que nunca mais consegui esquecer. O meu nome é Nivaldo Correia Lima, tenho 67 anos e esta é a minha história em minutos.
Eu trabalhava fazia alguns anos no cemitério municipal de Chapecó, quando o responsável me chamou numa manhã de 1982 cuidar de um enterro diferente. Fui até à sua sala juntamente com um colega, sem imaginar que aquele dia ia ficar guardado na minha memória para o resto da vida. Ele explicou-nos o que tinha acontecido.
Um homem tinha sido encontrado morto nos arredores da estrada, perto da cidade, alguns dias antes. Ninguém sabia dizer o que tinha acontecido com aquele homem, se foi acidente ou se foi outra coisa. O corpo não trazia qualquer documento, nenhuma carteira, sem papel. Não sabíamos a idade certa, não sabíamos de onde vinha. Só sabíamos que tinha de ser enterrado.
Disse que o corpo ficou no necrotério da cidade durante dias, esperando que alguém aparecesse para reconhecer. Mas ninguém apareceu, nenhum parente, nenhum vizinho, nenhum conhecido. A autarquia decidiu então que o enterro precisava de ser feito. Como indigente, sem cerimónia, sem nada além do necessário. O responsável disse-nos num tom seco que não haveria lápide com nome nenhum.
Só um número de registo gravado numa placa simples de metal com o número 1001. Ele pediu para usarmos uma cova que já estava aberta há alguns dias na ala mais afastada do cemitério. Um canto onde poucas pessoas costumavam passar, rodeado por árvores mais altas. Falou depressa, como quem trata de mais um serviço qualquer entre muitos outros, e voltou para o escritório.
Para ele era apenas papelada, mais um nome que ia entrar numa lista. Mais um número para registar no livro do cemitério. Para mim e o meu colega era trabalho carregar um peso que mais ninguém ia carregar. Fui buscar as ferramentas enquanto esperávamos que o caixão chegasse. Eu fazia este serviço a tempo suficiente para não estranhar quase nada.
Já tinha enterrado gente rica, gente pobre, gente sozinha, gente rodeada de choro e flor. Sempre Tratei cada um da mesma forma, com o mesmo cuidado, tivesse aquela pessoa nome conhecido ou não. Para mim, todo o morto merecia respeito. O carro chegou perto do meio da manhã, trazendo o caixão simples de madeira crua, sem verniz, sem qualquer enfeite, apenas uma caixa de tábua feita depressa, da maneira que se faz, quando não há ninguém para escolher nada melhor.
Ao ver aquele caixão descer da carroçaria, senti alguma coisa diferente passar por dentro de mim. Não sei explicar bem o que foi aquilo. Só sei que nunca tinha sentido igual em nenhum outro enterro. que já tinha feito até àquele dia. Guardei aquilo para mim sem dizer nada, a pensar que ia passar. Eu e o meu colega pegámos no caixão pelas pegas de madeira e começamos a caminhar lentamente pelo corredor de terra batida que levava até à cova.

O caminho não era longo, dava para fazer em poucos minutos, mas nesse dia pareceu maior do que o habitual, como se cada passo pesasse mais do que devia. No meio do caminho, um vento frio passou de repente, forte o suficiente para sacudir as folhas das árvores mais próximas. Estranhei porque não havia vento nenhum até àquele momento.
O dia estava parado, quieto, sem uma brisa sequer que justificasse aquilo. Veio do nada, abanou tudo e desapareceu do mesmo jeito rápido que apareceu. O meu colega parou por um instante, ainda segurando a pega do caixão com firmeza. olhou para os lados devagar, com aquele jeito de quem sente que tem alguém a observar de longe. Fiquei quieto, à espera que ele dissesse alguma coisa, mas ele só abanou a cabeça como quem afasta um pensamento mau e seguiu andando.
Eu também senti aquilo, a mesma sensação de estar a ser observado por algo que não consegui ver em lado nenhum, mas não abria a boca. Pensei que era coisa da minha cabeça e imaginação de quem trabalha demais num lugar cheio de silêncio. Preferi continuar a caminhar e deixar aquilo passar. Assim, chegamos à beira da cova e colocámos o caixão no chão do lado, da forma que sempre fazíamos antes de descer.
Fiquei ali parado por um segundo, olhando para aquela madeira simples, pensando que ninguém ia rezar por aquele homem, ninguém ia chorar, ninguém se ia lembrar do rosto dele depois desse dia terminar. Passamos as cordas por baixo do caixão e começamos a descer devagar, tendo o cuidado de não bater nas paredes de terra da cova. Foi nesse momento que o silêncio tomou conta daquele canto do cemitério.
Um silêncio diferente, pesado, que parecia abafar até o barulho das nossas próprias mãos trabalhar com as cordas. Terminamos de descer o caixão até ao fundo e ficámos parados por um instante, sem dizer nada. um para o outro. O meu colega olhou para mim e eu olhei para ele, mas nenhum dos dois comentou o que estava a sentir naquele momento.
Peguei na pá encostada à pilha de terra e comecei a jogar a primeira leva e ele fez o mesmo do outro lado. O trabalho seguiu da forma de sempre depois disso. Terra a cair pá depois de pá. A cova fechando-se aos poucos, até não restar mais nada, para além de um montinho direito de terra revirada, sem flor, sem coroa, sem nome. Guardei as ferramentas juntamente com o meu colega e saímos os dois calados do cemitério nessa tarde, cada um levando para casa aquela sensação que nenhum dos dois tinha a coragem de comentar em voz alta.
Fui para casa a pensar noutras coisas, tentando esquecer o que tinha sentido durante aquele enterro, mas aquela sensação não se foi embora comigo tão facilmente quanto eu esperava. Ficou ali escondida, guardada num canto da lembrança, à espera que alguma coisa acontecesse. E poucos dias depois, sem eu imaginar o que vinha pela frente, os primeiros começaram a aparecer sinais estranhos naquele mesmo canto do cemitério.
Uns quatro dias depois daquele enterro, precisei de voltar até ao túmulo para fixar a placa de características definitiva. Até aquele momento só tinha ficado a placa provisória de madeira e o responsável pelo cemitério queria a de metal colocada logo, presa firmemente na cabeceira, da forma que era feito com todas as sepulturas do lugar.
Peguei nas ferramentas necessárias, martelo, prego, a placa já pronta e fui caminhando sozinho até àquele canto mais afastado do cemitério. O dia estava normal, sol fraco por detrás das nuvens, sem nada que chamasse logo a atenção. Um dia comum, como tantos outros que já tinha vivido naquele trabalho ao longo dos anos.
No caminho, um cão que vivia por ali, andando livre entre as sepulturas, veio caminhando ao meu lado, da maneira que sempre fazia com toda a gente que passava perto dele. Aquele cão era querido por todos os que trabalhavam ali. Não havia dono certo, ninguém sabia direito de onde tinha vindo, mas cada funcionário dava comida, água, um cafuné de vez em quando.
passava-lhe o dia inteiro circulando entre as lápides, deitando-se na sombra, seguindo quem estivesse a trabalhar, sempre tranquilo por onde andava. Quando fomos chegando perto do túmulo, o cão parou de repente, ficou longe, plantado no lugar, sem dar mais um único passo na minha direção. Estranhei aquilo na altura porque nunca o tinha visto parar daquele jeito antes.
Chamei pelo nome dele, bati palmas de leve, tentando trazê-lo mais para perto, mas o cão não se mexeu. Ficou ali parado, olhando fixamente para a direção da sepultura, com o corpo meio duro, as orelhas em riste. Não dei muita importância na altura e segui sozinho até a lápide com a placa de metal debaixo do braço.
Ajoelhei-me perto da cabeceira e Comecei o trabalho de fixar aquele número ali com cuidado, prendendo bem os pregos para não se soltarem depois com o tempo e com a chuva que costumava cair forte naquela região. Fiquei concentrado no serviço, tentando fazer tudo bem, da forma que sempre fiz em cada sepultura. Foi então que o cão começou a rosnar, um rosnar baixo, contínuo, diferente de tudo o que eu já tinha escutado dele antes, em todos aqueles anos a trabalhar em conjunto com -lo pelo cemitério.
Levantei a cabeça para olhar e ele continuava parado no mesmo lugar, olhando fixamente para alguma coisa perto de mim. Depois veio o ladrar, forte, insistente, como se estivesse a ver alguma coisa parada bem ali perto de mim. que não conseguia ver de jeito nenhum. Olhei em volta várias vezes, tentando perceber o que podia estar a deixar o animal daquele jeito, mas não havia ninguém por perto, nenhum barulho estranho, nenhum movimento.
Mesmo sem ver nada, senti uma sensação má tomar-me naquele instante, como se um peso estranho passasse por dentro do meu corpo, de repente, começando no peito e descendo pelos braços. Fiquei parado por um segundo, sem saber se continuava o trabalho ou se largava tudo e ia-se embora dali. Decidi terminar de fixar a placa o mais rápido que consegui, sem demorar mais do que o necessário naquele local.
Guardei as ferramentas no saco e me Afastei-me andando rápido, sem olhar muito para trás, com o coração ainda um pouco apertado por causa daquela cena toda. Só depois de já estar alguns metros longe da lápide, o cão parou de ladrar e aproximou-se de novo, calmo, como se nada tivesse acontecido segundos antes.
Voltou a andar ao meu lado normalmente, abanando o rabo como se nada tivesse acontecido. Alguns dias depois, resolvi comentar por alto com um colega que trabalhava comigo há muitos anos, alguém de confiança que eu sabia que não ia rir-se de mim. Contei todos os pormenores e disse que tinha estranhado o comportamento do cão perto daquele túmulo novo.
Para minha surpresa, ele ficou sério ao escutar e disse que também tinha vivido uma experiência estranha dois dias antes, bem naquela mesma área do cemitério. contou que estava a terminar a poda das árvores perto das 18 horas, quando sentiu uma dor de cabeça forte do nada, sem motivo nenhum que explicasse. Ele parou o serviço para respirar um pouco, tentando aliviar aquela dor que vinha tão de repente e tomou conta da cabeça toda dele.
Foi nesse momento, ainda tentando recompor-se, que avistou um homem caminhando lentamente entre as lápides, não muito longe de onde estava a trabalhar naquela hora. A dor ficou tão forte que teve de fechar os olhos durante alguns segundos, tentando aguentar aquilo sem cair no chão. Quando voltou a abrir os olhos, o homem já não estava mais em lado nenhum.
tinha desaparecido da forma que apareceu, sem deixar rasto, sem barulho de passo, sem sinal de ter passado por ali. O meu colega sentiu um arrepio forte e uma sensação mau tomar conta dele na mesma hora, ainda meio tonto, com a dor de cabeça que teimava em não passar direito. Ele contou-me que só conseguiu pensar numa coisa naquele momento, sair dali o mais rápido possível.
largou as ferramentas de poda de qualquer maneira, encostadas numa árvore próxima, e foi-se embora, andando depressa, sem conseguir explicar direito o que tinha acabado de presenciar entre aquelas lápides. Só voltou para buscar as ferramentas no dia seguinte de manhã, quando o sol já estava alto no céu. Fiquei abalado ao ouvir o seu relato, sentindo que não era só eu a passar por aquilo sozinho naqueles dias.
Fiquei calado por um instante, juntando na cabeça o que tinha acontecido comigo com o cão e o que ele acabava de contar sobre aquele homem que desapareceu mesmo à frente dos olhos dele. Comecei a desconfiar que alguma coisa realmente estava a acontecer naquele cemitério, principalmente naquele canto onde estava o túmulo 1001.
E por mais que eu tentasse encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo, uma certeza foi crescendo dentro de mim aos poucos. Só tinha começado depois do enterro do homem sem nome. Os dias foram passando depois daquela conversa com o meu colega e as coisas estranhas não pararam de acontecer. Não eram sempre acontecimentos grandes, mas eram constantes o suficiente para eu não conseguir esquecer aquele lugar por muito tempo.
Cerca de uma semana depois do enterro, já ao fim da tarde, eu estava a voltar pra sala dos funcionários para me arranjar e ir embora para casa. O sol já estava baixo e o lugar começava a esvaziar-se gradualmente do forma que sempre acontecia naquele horário do dia. Segui pelo caminho de sempre, passando perto das carreiras de túmulos mais antigos, pensando no jantar que a minha esposa devia estar a preparar naquele momento em casa.
A cabeça estava mais no cansaço do dia de trabalho do que em qualquer outra coisa. os pés pesados, a vontade de chegar logo a casa e descansar. Foi então que avistei de longe uma figura parada mesmo em frente ao túmulo 1001, uma senhora de cabeça baixa parada sozinha naquele canto mais afastado do cemitério, onde quase ninguém costumava passar aquela hora do dia, principalmente perto do fim da tarde, quando o movimento já diminuía bastante.
Deixei de andar por um instante, olhando fixamente para confirmar o que estava a ver à distância. Aquilo era estranho, porque nunca, em todos aqueles dias, desde o enterro tinha visto alguém parar perto daquela sepultura. Aquele túmulo não tinha lápide com nome, apenas um número frio de metal. Fiquei parado, na dúvida se me devia aproximar ou se era melhor seguir o meu caminho e deixar aquela senhora em paz com o que quer que estivesse ali a fazer.
Decidi, depois de alguns segundos, hesitando ali no meio do caminho, caminhar na direção dela. Os meus passos eram lentos, com cuidado, tentando não parecer que estava invadindo um momento particular de alguém que talvez estivesse ali a sofrer por algum motivo que ainda não conhecia direito. Conforme me ia aproximando-se lentamente, comecei a escutar um som grave vindo daquela direção, um choro contido, quase sem força, do tipo que a pessoa tenta segurar dentro de si mesma para não o deixar sair demasiado alto.
O choro parecia sair de um lugar bem fundo, abafado pelas suas próprias mãos, cobrindo o rosto. O meu passo ficou ainda mais devagar depois de escutar aquele som, sentindo que talvez estivesse mesmo aproximando-se de algo que não devia interromper de qualquer maneira. Foi nesse momento que senti um peso diferente no ar em redor daquele lugar, algo que parecia circular ali mesmo entre as lápides mais próximas do túmulo 1001.
Não era o mesmo arrepio de antes, nem a mesma sensação má que já tinha sentido com o cão há dias, nem o vento estranho que tinha passado no dia do enterro. Era outra coisa, mais pesada, mais presente, como se alguma coisa estivesse ali junto connosco naquele instante. Mesmo incomodado com aquilo, Continuei a aproximar-me devagar, sem parar de andar desta vez.
Os meus pés pisavam com cuidado a terra batida, evitando fazer demasiado barulho, enquanto os meus olhos estavam fixos naquela senhora parada de costas para mim, ainda de cabeça baixa, os ombros a tremerem levemente com o choro contido. Quando cheguei perto, o suficiente para falar sem gritar, respirei fundo antes de abrir a boca.
Não queria assustá-la, nem parecer demasiado intrometido na dor de alguém que nem conhecia direito. Falei baixo, com a voz mais calma que consegui puxar naquele momento, perguntando se estava tudo bem com ela ali sozinha. Ela demorou alguns segundos a responder, sem se virar de imediato. Fiquei parado esperando, sentindo aquele peso ainda pairando no ar à nossa volta, como se estivesse à espera de alguma coisa acontecer junto comigo naquele instante.
Foi então que ela começou a virar-se lentamente, na minha direção, ainda com as mãos próximas do rosto, secando as lágrimas que corriam sem parar. Quando finalmente virou o rosto para mim, vi os olhos dela molhados, vermelhos de tanto chorar ali sozinha. Era uma senhora de idade avançada, o cabelo já bem grisalho, apanhado num coque simples, o rosto marcado por rugas profundas que contavam uma vida inteira de trabalho.
Ela olhou-me por um instante em silêncio, como se estivesse a decidir se ia dizer alguma coisa ou não. Então ela abriu a boca e a voz saiu-lhe embargada, tremendo entre as palavras, quase sem força, para completar toda a frase. disse, olhando fixamente para mim, uma frase que eu não esperava escutar de forma nenhum naquela tarde: “Esta alma precisa de ajuda.
” Fiquei parado, sem reação nenhuma, sem compreender bem o que ela estava a querer dizer com aquilo tudo. O meu primeiro pensamento foi que talvez ela estivesse a falar de alguém da A própria família dela, algum familiar enterrado ali perto numa campa vizinha, mas alguma coisa na forma como ela olhava para mim, fixamente, com aquela urgência no olhar, e o facto de estar precisamente parada em frente daquele túmulo sem nome deixou-me com um frio diferente por dentro do peito.
Fiquei calado por alguns segundos, tentando organizar na cabeça o que ela tinha acabado de dizer, juntando aquilo com tudo o que já tinha vivido naqueles últimos dias desde o enterro. Não Consegui segurar a pergunta que veio na hora e perguntei-lhe com cuidado o que ela queria dizer com aquilo, qual alma ela estava afinal a falar.
Ela respirou fundo, olhando de novo para aquela lápide simples com o número 1000 e um gravado na placa de metal. e começou ali mesmo parada à minha frente a contar-me uma história que eu jamais imaginei que fosse escutar nessa tarde comum ali naquele canto esquecido do cemitério, onde eu tinha ajudado a enterrar um homem sem nome.
Fiquei parado ali à frente dela, esperando as palavras que viriam a seguir, sem imaginar o tamanho do que estava prestes a escutar nessa tarde. Ela limpou o rosto com as costas da mão, respirou fundo mais uma vez, olhando para o chão por um instante, e começou a falar devagar, como quem organiza dentro de si uma história guardada há muito tempo sem contar a ninguém.
Disse que sempre foi uma mulher de fé que acreditava no mundo espiritual desde criança, ensinada pelos pais a respeitar coisas que a as pessoas nem sempre entendem direito nessa vida. disse aquilo com calma, como se precisasse de deixar claro logo de início que não estava ali por invenção, nem por fraqueza de cabeça, mas por algo que sentia de verdade.
Contou que havia alguns dias vinha tendo um sonho que se repetia toda a noite, sempre parecido, sempre pesado, sem a deixar descansar direito. Ela dizia que já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha acordado a meio da madrugada, o coração disparado, sem conseguir voltar a adormecer depois daquilo.
No sonho, ela via um homem a caminhar pelo meio de um cemitério sozinho, sem rumo certo, passando entre as fileiras de túmulo, como quem procura alguma coisa que não se consegue lembrar direito o que é. um homem que ela não conseguia reconhecer, o rosto sempre desfocado como se estivesse rodeado de neblina fina.
Ele parecia perdido, olhando para os lados, procurando alguma coisa que nunca encontrava em lugar nenhum daquele lugar. Em alguns momentos do sonho, o homem parecia abrir a boca para pedir ajuda, mas nenhuma palavra saía dele, só o gesto, os braços meio erguidos, como quem implora sem conseguir formar as palavras certas. Ela acordava sempre agitada depois daqueles sonhos, suando frio, sem compreender direito o que aquilo podia significar para ela.
Nem porque aquela imagem regressava toda a noite da mesma maneira, sem variar quase nada, sempre nesse mesmo cemitério, sempre com aquele mesmo homem perdido entre as lápides, pensando que talvez aquele sonho tivesse ligação com O seu próprio filho, que também estava ali sepultado naquele mesmo cemitério. há alguns anos, ela decidiu ir até ao túmulo do filho nesse dia para rezar e pedir que a sua alma estivesse em paz, caso fosse ele a aparecer daquele jeito nos sonhos dela.
Foi até à campa do filho, ajoelhou-se em frente com a vela que tinha trazido de casa já na mão e começou a rezar da forma que fazia sempre quando ia visitar aquele túmulo. fechou os olhos, juntou as mãos e pediu em silêncio que o filho descansasse em paz, que qualquer coisa que o estivesse a incomodar fosse embora.
Enquanto rezava, com os olhos fechados, sentiu de repente uma sensação estranha chamando-a para outro lugar, um pouco mais afastado dali, num canto do cemitério onde ela nunca tinha ido antes em todos aqueles anos a visitar o filho. Não conseguiu explicar bem o que era aquela sensação. só sabia que precisava seguir aquilo, sem compreender o motivo, quase como se os pés se movessem sozinhos, puxados por algo que ela não controlava.
Levantou-se devagar, ainda meio tonta, e começou a caminhar na direcção daquele canto mais afastado, guiada por algo que parecia puxá-la para lá. Quando chegou perto e viu o túmulo 1001 sem nome, só com aquele número frio gravado na placa de metal, sentiu a mesma aflição do sonho tomar conta dela de novo, forte, da forma que sentia, ao acordar assustada a meio da noite, o peito apertado, a respiração meio curta.
Foi então que compreendeu ali mesmo, parada em frente daquela lápide simples, que não era o filho dela que aparecia no sonho todas as noites. Era aquele homem, o homem sem nome, ali enterrado sozinho, sem ninguém para se lembrar dele, sem ninguém para rezar, sem que ninguém sequer sentir a falta dele em qualquer canto do mundo.
Ela contou-me tudo isto com os olhos novamente cheios de água, a voz trémula, como se revivesse aquele momento de entendimento ali mesmo na à minha frente, com a mesma força de quando aquilo tinha acontecido de verdade minutos antes, pouco antes de eu chegar e encontrá-la ali parada. Fiquei a escutar em silêncio o tempo todo, sem saber bem o que dizer perante uma história daquele tamanho, contada por uma pessoa que eu nem conhecia até àquele momento.
Sentia o peito apertado, juntando cada palavra dela com tudo o que eu próprio já tinha vivido naqueles últimos dias desde o enterro. Ela então baixou o olhar paraa bolsa que trazia no braço e de lá tirou a pequena vela que tinha trazido de casa nessa tarde, ainda sem uso, guardada com cuidado dentro de um pano. Disse que aquela vela era para deixar no túmulo do filho, da forma que costumava fazer sempre que ia visitar, mas que agora ia deixá-la acesa ali naquele túmulo 1001 pela mesma intenção.
falou que aquela chama era para ajudar a alma daquele homem a encontrar o caminho que ele parecia estar à procura em cada sonho, o descanso que merecia depois de tantos anos esquecido, sem ninguém para se lembrar dele, nem para chamar pelo nome que nunca ninguém soube qual era de verdade.
Ela acendeu a vela ali mesmo com um isqueiro que tirou do bolso do casaco, protegendo a chama com a mão enquanto o vento fraco daquele fim de tarde tentava apagar. colocou com cuidado perto da placa de metal, ajeitando bem para não cair, e ficou parada, olhando aquela pequena luz tremer devagar, em silêncio por um bom tempo.
Depois voltou-se para mim de novo e fez um pedido com a voz ainda embargada, mas mais firme do que anteriormente, como se aquilo já tivesse trazido algum alívio para ela. pediu que eu, sempre que pudesse, deixasse uma vela acesa naquele túmulo, pela mesma razão que ela tinha feito naquele momento, para que aquela alma nunca mais ficasse sozinha ali.
Prometi-lhe, sem pensar duas vezes, que ia fazer aquilo. Eu disse que ia cuidar daquele túmulo com o mesmo respeito que dava a qualquer outro no cemitério e que a vela ia acender sempre que fosse possível dali em diante, pelo tempo que fosse necessário, sem falta nenhuma da minha parte. Ela sorriu de leve, um sorriso cansado, mas de alívio verdadeiro, e agradeceu por eu ter parou para a escutar naquela tarde, sem pressas, sem estranhar a situação, daquela maneira que as outras pessoas talvez tivessem estranhado.
Despediu-se com um aceno simples e seguiu caminhando lentamente pelo cemitério na direção da saída. Fiquei sozinho diante do túmulo 100 e depois de ela ter desaparecido de vista entre as árvores, olhando para aquele chama pequena, a tremer perto da placa de metal, iluminando levemente aquele número frio, que era tudo o que restava daquele homem.
Compreendi naquele momento que aquilo nunca tinha sido assombração nenhuma. Era apenas uma alma perdida, precisando de alguém que se lembrasse dela, nem que fosse por um número numa lápide fria, sem nome nenhum gravado. Depois desse dia, contei aos outros funcionários do cemitério tudo o que tinha acontecido, sem esconder qualquer pormenor do que tinha vivido naquela tarde estranha.
E a partir dali, aquele túmulo 1001 tinha uma vela acesa todos os dias, sem exceção, cuidada por mim ou por algum outro colega, que também passou a respeitar aquela história depois de escutar tudo o que eu tinha contado para -os com calma, sem pressa nenhuma. Nunca mais aconteceu nada de estranho naquela parte do cemitério depois daquele dia.
Nem o cão voltou a rosnar por ali, nem mais ninguém teve dor de cabeça ou viu vulto nenhum entre as lápides daquele canto. E eu, depois de tantos anos a trabalhar entre os mortos, acredito com toda a certeza que A alma daquele homem finalmente encontrou o caminho e a paz que tanto procurava. E se alguma vez na vida se sentiu algo semelhante, um sinal, uma sensação estranha, um sonho que parecia mais real do que devia, deixa um eu acredito aqui nos comentários para mostrar que também acredita que há coisas neste mundo que a gente
nunca conseguirá explicar. Que Deus abençoe a si e à sua família sempre. Até o próximo relato.